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E, depois, é só mexer-se bem

Para termos fome, temos de fechar a boquinha durante umas horas. Duas, no mínimo. Para termos muita fome, temos de fechar a boquinha e mexermo-nos.

Um dos grandes bifes da minha vida comi-o em casa, há uns meses. Tinha vindo de fazer surf na Costa da Caparica, um surf poucochinho, registo sénior, as ondas ligeiramente maiores que as da Lagoa de Óbidos. 

Estava com um apetite selvagem, como quando tinha 10 anos de idade e chegava a casa depois de um dia a jogar à bola e punha-me a enfardar na despensa até só restar o pacote de Omo.

À falta de uma despensa de mãe, fui ao meu frigorífico. Havia um bife disponível, daqueles com gordura grossa. Tirei-o e pus a frigideira ao lume. A frigideira é o melhor amigo da pessoa esfomeada. Qualquer proteína atirada para uma frigideira bem quente fica boa em meia-dúzia de minutos. O fenómeno chama-se reacção de Maillard e tem a ver, basicamente, com o processo de transformação dos aminoácidos e dos hidratos de carbono pelo calor. É por isso que, ao contacto com uma frigideira, um pedaço de carne mole e sanguíneo transforma-se numa beleza dourada e aromática.

 

Estes cachaços de vaca são bons sem apetite, mas com apetite são do outro mundo.

Então foi assim. Quando o frigideira estava bem quente, atirei lá para dentro o bife, um fio de azeite, dois dentes de alho, sal marinho. Em quatro minutos ficou pronto, médio passado. Reservei. Mais azeite na frigideira, um ovo a estrelar, deixei-o encarquilhar e dourar até ficar feioso — e já está. Empratamento: pão no prato, bife e molhanga por cima, depois ovo e mais molhanga por cima do bife, sal, pimenta. E apetite. Muito.

Estava bem feito o bife, mas melhor ficou por causa do meu apetite. Toda a gente tem a sensação de que o apetite transforma comidas mundanas em refeições de haute cuisine. Mas a maior parte não usa o apetite como condimento, não lhe dá a devida atenção. E é aqui que eu quero chegar. O apetite deve ser gerido minuciosamente. Esqueçam aquela coisa do comer a toda a hora, encurtar o tempo entre refeições, não deixar o estômago vazio. Isso foi teoria que uns nutricionistas inventaram e outros rebateram. Isso vale se soubermos de antemão que o almoço vai ser, digamos, estufado de esparguete com jardineira (bilheque). 

É preciso, sim, deixar o estômago descansar. 

Sei do que falo. Como pessoa que faz profissão da actividade de comer (escrever sobre), sou um gestor profissional de apetite. No início, quando comecei a fazer crítica de restaurantes cometi muitas vezes o erro de ir almoçar depois de uma prova de vinhos ou, pior, a seguir a uma prova de mostardas de Dijon, só com uma passagem pelo computador de intervalo. Nem o Belcanto me conseguia arrancar um hmmm. Era tudo mais ou menos, parecia tudo desenxabido. 

Com o tempo, passei a ter cautelas. Se me calha fazer crítica de um restaurante com uma degustação de 12 pratos, ao jantar, nem sequer almoço. 

Para termos fome, temos de fechar a boquinha durante umas horas. Duas, no mínimo. Para termos muita fome, temos de fechar a boquinha e mexermo-nos. Qualquer exercício ajuda — varrer o chão da sala, ir apanhar gambuzinos a Monsanto, andar de barquinho no Campo Grande — mas quem pratica desporto tem mais apetite. Mesmo que seja surf para veteranos. 

Este texto foi publicado, com edições, no jornal A Bola.

3 comments on “E, depois, é só mexer-se bem

  1. Miguel santos

    Muito bom, como sempre!

  2. JOÃO LEAL

    Experimente dar-lhe por, digamos, 1/2 hora banho de sal, pimenta, alho em pó e azeite ou óleo. Eu prefiro assim e até o aroma que libertam quando tocam a chapa é outro.
    Talvez por deformação induzida pelos hábitos alimentares que me moldaram prefiro com algum sal entranhado e, sempre, mal passada.

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