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Quando o jornalismo ganha

Sobre o chef Kiko e a sua viagem a Marte.

Não conheço bem o chef Kiko Martins, mas tenho ideia de que é sério e sei que faz bem o seu trabalho. Sucede que o chef Kiko Martins mentiu.

Todos nós já mentimos. Eu já menti, tu já mentiste, eles já mentiram. Todos nós já termos mentido é feio. Mas esta história não é só feia, é um sinal dos tempos. Kiko Martins mentiu, deliberadamente, com a confiança de quem tem o mundo a seus pés, os jornalistas no bolso, as redes sociais nos boxers e os bloggers no chinelo.

Fê-lo oralmente, por escrito, em directo, a cores e ao vivo. E voltou a fazê-lo.

Valeu-nos desta vez o jornalista Marco Alves, da Sábado (que conheço tão mal como Kiko Martins). Marco Alves escreveu um artigo exemplar e desmontou uma campanha de marketing, patrocinada pelo próprio chef, assente na ideia de que tinha ganho um concurso culinário da NASA muito importante quando o que ele venceu foi uma competição em Saragoça com chefs de segunda linha, patrocinada por um centro de astrobiologia espanhol, “asociado ao NASA Astrobiology Institute” mas que obviamente não vincula a NASA a nada do que ali se passou.

Toda gente papou a coisa, a Cristina papou a coisa, mas o Marco Alves não papou a coisa. Teve sentido jornalístico e desconfiou, que é uma coisa que os jornalistas devem fazer.

Mas que raio de prémio é este? O primeiro prato em Marte é do chef Kiko? O primeiro concurso mundial de gastronomia espacial da NASA e ninguém dá conta disto? Onde está o artigo do New York Times?

Confrontado pela Sábado, o chef Kiko editou os seus posts sem assumir que o tinha feito. Por fim, como que a encerrar o assunto, fez um texto no Instagram e no Facebook sem contrapor nem desmentir o artigo da Sábado, concluindo com um argumento patrioteiro: “Sou português? Sim, sou! E com muito orgulho em ter vencido o concurso”.

Oito horas depois, o post no Instagram tinha 2540 gostos e 115 comentários, mais de 95 por cento dos quais a aplaudir o chef. Mas eram pessoas que queriam acreditar naquilo, por diversas razões. Quem quis ler os dois lados percebeu o que se passou.

O caso Kiko/batata-da-NASA tem a importância que tem. Não é um atentado à bomba, não morreu ninguém, Bolsonaro não ganhou as eleições em Portugal, Trump idem. Kiko Martins terá cometido um erro e isso, por si, não o transforma num mau carácter nem num mau chef.

Mas a anatomia do embuste deixa-nos um aviso importante. O jornalismo não pode morrer perante os campeões das redes sociais. Sob pena de sucumbirmos a outro tipo de propaganda.

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