Crítica Reportagem Restaurantes

The Old House: Bom que dói

 

Espreitar o prato do vizinho é sempre recomendável, mas a máxima torna-se imperativa quando estamos num restaurante chinês e os vizinhos são um grupo de autóctones a pescar coisas estranhas de uma tigela gigante, como crianças a jogar Subbuteo.

“Queremos aquilo”, disse ao empregado.

O empregado foi ver o que era aquilo e voltou com más notícias:

“Infelizmente, é muito picante. O nível é de três malaguetas, o mais elevado do restaurante. Não vão conseguir comer. Só mesmo eles é que comem aquele prato.”

Airton não equacionou sequer estar perante ocidentais treinados na capsicina. “Eles” eram naturais da China e tinham as papilas forradas a aço. Ninguém a oeste do Quirguistão conseguia aquela dose de malagueta.

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Senti a mesa recuar, mas eu e o meu Chico, 11 anos a comer de tudo, não vacilámos. Viria o pato à Pequim, viria a sopa ácida picante, a entremeada cozinhada duas vezes e, também, o terror dos tugas, o fogo do Parque das Nações, o vulcão de Chengdu — o shui zhu niu rou, a carne de vaca em óleo de feijão e chiles ou, na tradução simplista para português, o “bife em molho picante”.

Em boa hora arriscámos.

Assim que a terrina pousou foi evidente o aroma magnífico a pimentas de Sichuan. Ao aproximarmos os olhos, conseguíamos sentir o ardor provocado pela malagueta moída no topo, por baixo a pasta de feijão com chiles.

O empregado largou a terrina e ficou a rondar, braços atrás das costas.

O Chico foi o primeiro. Eu seguiu-o. Logo à primeira lâmina de bife, fiquei com as pálpebras a arder e os olhos mareados. Chovia lá fora e eu suava. Percebi, nessa altura, que o Chico estava mais treinado. Enquanto me contorcia de dor e prazer, ele soltou um “isto pica mesmo”, mas com a serenidade de quem tem tudo controlado, limitando-se a encher a boca com arroz branco (extraordinário), muito arroz branco.

Apesar dos protestos, o sector feminino também acabou por se aventurar e foi unânime. “É óptimo”.

Não eram só os bocados de carne de vaca, fina, tenríssima, que eram maravilhosos. Eram as couves, que pareciam ter sido marinadas, e os rebentos de soja cobertos naquele líquido pastoso feito de chiles e pasta de feijão, a boca cheia de coisas a explodir, a pimenta de Sichuan fresca e quente, adormecendo-nos a língua.

De resto, tudo o que veio para a mesa estava excelente.

A sopa ácida-picante com pedacinhos de tofu, cogumelos, o ovo em pedaços sedosos, o vinagre e o picante no ponto.

Quanto ao Pato à Pequim, continuo sem conhecer melhor em Lisboa: panquecas finíssimas, a pele solta da carne e um molho hoisin caseiro, sem doce nem anis a mais.

A entremeada cozinhada duas vezes, um dos grandes clássicos de Sichuan, igualmente perfeita, com feijões pretos fermentados, outra maravilha que não vai encontrar no seu restaurante chinês da esquina.

E, por fim, nas sobremesas o lago dos cisnes, um biblô delicioso, feito de pasta doce de feijão e massa em forma de cisne, como uma relíquia de alta pastelaria, arrebatou as atenções e as papilas.

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Nas bebidas, experimentou-se o batido de batata doce roxa e o leite de amendoim. Ambos bons, servidos mornos, não a melhor coisa para atenuar o picante.

Já não ía há muito tempo ao The Old House. Um erro. Lisboa tem muita sorte em ter um restaurante deste nível. O The Old House é uma cadeia de restaurantes na China, mas isso, no caso, não quer dizer nada. Nesta “loja” trabalham mais de 20 pessoas só na cozinha, chefs qualificados chineses, com uma disciplina e um rigor de alta cozinha. É tudo feito ali, dos molhos às massas. E é tudo de um nível muito alto.

De resto, o restaurante é lindíssimo e confortável e não podia ter escolhido melhor sítio para almoçar num domingo invernoso, com o Tejo agitado em frente.

Longa vida.

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O melhor: A ideia de que a cozinha é uma aventura e que essa aventura se pode tornar em algo sublime se conduzida pelos melhores, com amor e técnica, como é o caso dos chefs deste The Old House.

O pior: O serviço é genericamente competente, mas nem todos os empregados conhecem os pratos a fundo.

Pratos obrigatórios: Entremeada com dupla confecção, bife com molho picante, frango do campo com amendoins, espinafre extraordinário, frango The Old House, coelho crocante salteado com malaguetas, gambas com amendoins gongbao, peixe premium com 6 texturas.  

Contacto: Aberto todos os dias, almoços e jantares, reservas para 21 896 9075. Rua da Pimenta, 9, entre a FIL e o Tejo, a chegar ao Pavilhão Atlântico.

Estacionamento: Tem parque subterrâneo mesmo ao lado, pago.

Preço desta refeição: 26€ p pessoa.

 

 

 

 

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1 comment on “The Old House: Bom que dói

  1. Maria Leite

    Também adoro este restaurante e este sítio. Faltam-me uns pratinhos desta lista mas não é nada que não se resolva. Em geral tudo o que tenho comido não dececiona ou é bom mesmo. Um sítio a voltar, sem dúvida.

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