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Há um novo ramen na cidade (que veio de Tóquio e fez escala em Portland)

O nome Afuri não me dizia nada até ontem ao almoço, mas aconteceu um amigo ter-me dado a dica de um novo ramen no Chiado e eu passar à porta esfaimado, passava das 15.30.

A sala estava vazia mas os empregados pareciam entusiasmados, como se fosse a estreia de uma peça. “Abrimos só na passada segunda-feira”, atirou o barman, logo à entrada.

Foi já depois de estar sentado que pesquisei no telefone sobre o restaurante. Percebi então que o Afuri era mais do que um franchise a aproveitar a tendência dos asiáticos trendy.

À primeira pesquisa no Google fui parar a um artigo do influente site Eater sobre o restaurante de Portland, nos EUA. O texto era quase todo sobre o seu prato mais célebre — o yuzu ramen — objecto de devoção dos instagramers locais.

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Nessa altura, já eu tinha pedido outro ramen (o menu tem meia dúzia): o spicy tsukemen. Frustrado, quando o prato chegou dei conta do tiro ao lado. O empregado foi sensível à minha angústia. “Não tem problema, eu trago-lhe o yuzu. É de facto o nosso ramen de assinatura”.

Aproveitei para ir à casa de banho e foi nessa altura que me deparei com a cozinha do restaurante, onde se podia ver uma enorme panela com pedaços de cebolas e outros legumes a boiar sobre um líquido gorduroso e promissor.

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Taichi Ishizuki, CEO da marca e sake sommelier, a cuidar do caldo de frango.

Era o  chintan, o famoso caldo de frango feito num tacho igualmente famoso. O frango coze nele durante oito horas a baixa temperatura, criando-se várias camadas. A gordura fica no topo e só se aproveita a camada translúcida e límpida da base,  filtrada através de uma torneira incorporada na parte inferior do panelão.

O resultado é um caldo mais magro do que o habitual, mas com um sabor extraordinário a alho assado espevitado pela acidez do yuzu, o citrino japonês. De acordo com o tal artigo da Eater, os yuzus do Afuri são comprados num produtor próprio da localidade de Umaji, no Japão.

Atenção que os indefectíveis do ramen tonkotsu podem achar este caldo ligeirinho. O tonkotsu é feito com ossos de porco e tem um sabor mais gordo, mais cheio, com mais umami. O empregado do Afuri explicou que neste momento não o têm na carta porque o tempo ainda está quente, mas que tencionam servi-lo — para deleite do meu amigo Tiago Viegas, um dos maiores devoradores de ramen desta cidade, que achou o yuzu ramen “pouco complexo”.

A acompanhar os noodles do yuzu ramen, a omnipresente cha su (barriga de porco cozinhada a baixa temperatura), mizuna (uma espécie de escarola, que por sua vez é uma espécie de alface amarga), bambu e, claro, a alga nori e o ovo nitamago, no caso cozido para lá do ponto.

Nisto, eis que chega o indivíduo japonês que eu vira de volta do panelão. Traz o spicy tsukemen, o meu pedido inicial. “Já o tínhamos preparado, experimente este também. Não tem de o comer todo”, disse.

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O spicy tsukemen, um prato de noodles frios. O molho é de sésamo torrado e picante.

O que era para ser um snack entre duas tarefas ao início da tarde tornou-se assim num banquete de ramen. O tsukemen era também ele interessante. Numa tigela, os noodles (saborosos, ligeiramente rijos), juntos com cha su e o bambu fermentado; noutra tigela à parte, um molho picante de sésamo torrado, para imergir os noodles antes de os sugar.

O tal japonês voltou para perguntar sobre a refeição e eu aproveitei para o maçar com perguntas. Se os noodles eram frescos. “Não, por enquanto são importados de Nova Iorque de uma fábrica com quem trabalho. Mas queremos ter aqui uma unidade de produção quando abrirmos a segunda loja, como temos em Portland e em Tóquio”. Se a ideia era expandirem-se. “Sim, esta a primeira loja na Europa, queremos crescer a partir de Lisboa”.

O simpático japonês entregou-me então o cartão de apresentação e foi aí que fiquei a saber que se tratava de Taichi Ishizuki, a pessoa citada no artigo da Eater que acabara de ler, CEO do Afuri e sommelier de sake, com base em Portland.

A marca têm 11 restaurantes em Tóquio, onde são uma referência, e dois em Portland, onde são a loucura dos instagramers.

Em Lisboa, há uma comunidade cada vez maior de apaixonados por ramen, mas um factor pode ser dissuasor:  o preço. Os ramen do Afuri são ramen de Chiado, ou seja, andam entre os 14 e os 15 euros. O que é mais do que pagam os norte-americanos no Afuri de Portland ou do que se paga, por exemplo, no Kanada-Ya, no Soho de Londres, um dos melhores ramens que comi na Europa.

Em todo o caso, Lisboa ganhou um restaurante sério de ramen — e isso é uma raridade que deve ser festejada como um golo de Éder.

R. Paiva de Andrade 7 (Chiado) Lisboa. Aberto todos os dias das 11.00 às 23.45. Aceita reservas: 968 710 555

 

 

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7 comments on “Há um novo ramen na cidade (que veio de Tóquio e fez escala em Portland)

  1. João Pratas

    Boas notícias! Se se aproximar do Kanada Ya, também o melhor ramen que comi fora do Japão, será excepcional. Ainda por cima agora, que fechou o joint do Mercado de São Bento.

    (curiosamente, o primeiro post que li aqui, foi o do ramen do Assuka, que nunca tive oportunidade de experimentar)

    • João, não iria com essa expectativa, mas é bom. Também gostava do de São Bento, embora achasse curto. O ramen do Assuka continua imbatível, até porque eles faziam os noodles frescos lá, coisa que julgo não existir em Lisboa a não ser no Ajitama e num chinês do Martim Moniz. Mas gostei dos noodles do Afuri, sobretudo dos frios.

      • João Pratas

        Fui agora conhecer o Afuri (acho que nos cruzámos), e realmente não fiquei convencido. De qualquer forma, sou fã de caldos mais ricos. com outra estrutura, e os que provei, os 2 de yuzu são demasiado ligeiros. O que, e especialmente olhando para a conta no final, não evitou que saísse desapontado. Voltarei para um tira teimas quando o tempo estiver mais convidativo!

      • Olá João, percebo. Vai ao truffle miso que acabei de provar. Para a próxima cumprimentamo-nos!

      • João Pratas

        O truffle miso vai fazer-me voltar (em dias de mais frio, principalmente). Obrigado pela dica!

  2. No Japão também há uns bem bons!

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