Reportagem

Proust e o Nestum com Mel

No primeiro volume de “Em Busca do Tempo Perdido”, o colosso literário de Marcel Proust, o narrador, enfastiado por um dia tristonho, é remetido para a infância quando a mãe lhe serve uma madalena com chá.

O episódio tornou-se num dos excertos mais célebres de sempre, por razões que ultrapassam a literatura. A esse efeito das sensações na recuperação de memórias, a psicologia moderna haveria de chamar de Efeito Proust ou, em termos coloquiais, A Madalena de Proust.

Ontem, pelas 23.30, tive a minha Madalena de Proust. Estava a comer uma taça de Nestum com Mel e, de repente, tinha 12 anos outra vez e o apetite selvagem de quem passava os dias a jogar ténis. Fiquei feliz e preenchido e absolutamente certo de que dormiria nove horas (ahahaha) e de que no outro dia pegava na mochila com a energia de um pré-adolescente. 

Isto acontece porque a comida nunca é só o que está na comida. A comida é, sobretudo, o que está na cabeça. Nestum está na minha cabeça e está bem. A baunilha sintetizada não é o mais importante.

Dito isto, é preciso saber comer Nestum com Mel. Nestum com Mel tem três regras incontestáveis, universais e obrigatórias:

  1. O leite tem de estar frio frio, frio a sair do frigorífico. Nestum com Mel em leite quente é como bitoque sem ovo.
  2. Pelo menos um quinto da papa deve ficar à superfície. Nestum sem crocante é bosta.
  3. Colocar pouca quantidade. A papa imersa não deve tornar-se pastosa, mas manter-se leve.

Agora, não abusem. Como tanta coisa que sai da Nestlé, aquilo está cheio de açúcar. Daquele que dá cabo da memória.

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9 comments on “Proust e o Nestum com Mel

  1. Duartecalf

    Apesar de ter papas em casa por causa dos miúdos ainda não tive coragem de comer uma tigela só para mim (mas fico sempre com esperança que não queiram acabar!…).
    Há uns dias lembrei-me de uma panca que tinha com Maizena… ainda hei de fazer.

  2. CTorres

    E por falar em sabores de antigamente, alguém sabe onde se encontram ovos com o sabor de antigamente? Já corri várias marcas, incluindo 3 biológicas, e não encontrei ainda ovos que tenham aquele cheiro e sabor dos que havia em cada da minha avó (e ela não tinha galinhas, eram comprados mesmo). Aliás, arrisco dizer que não encontro ovos praticamente com cheiro ou sabor algum…

  3. Artur Hermenegildo

    Eu era mais Cérélac. Ainda hoje como com prazer, pela tal memória…

  4. Pois eu embirrava com o facro de 9 em 10 embalagens de Nestum vendidas fossem “com mel” (também nunca percebi o nome, porque nem a mel miserável aquilo sabia). Então, só para ser do contra, os meus preferidos eram o “com figos” e o “rico em proteínas”. Este último, devia ser o equivalente ao “avocado” toast de hoje. Bom, agora vou-me deixar disto, que tenho uma língua bovina para fazer. Esta sim, mesmo rica em proteínas

  5. Quando era miúdo, no Brasil, lembro-me de a minha mãe fazer uns bolinhos em forma de meia-lua, em que dava uns pequenos golpes com a tesoura no lado arredondado, dando-lhe um aspecto de crista. Iam ao forno e a cozinha enchia-se de um cheiro delicioso a erva-doce. Chamava-lhes costinhas. Nunca percebi porquê mas, desde que fomos para Portugal, a minha mãe nunca mais fez costinhas. Devia ter uns 15 anos a última vez que as comi. De certeza que, se voltasse a prová-las hoje, era Efeito Proust garantido…

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