Aforismos e Cenas Reportagem

Até agora ninguém se queixou!

Era suposto ser um almoço tranquilo depois da praia num restaurante de estrada à saída do Meco, atolado de escaldões, camisolas de alça e mulheres maduras com tatuagens desbotadas.

Comecei por espreitar a vitrina de peixe e só vi carapaus amolgados e douradas importadas de uma linha de montagem no Chile. Como medida de segurança, optei pelas petingas fritas com arroz de tomate, prato do dia.

Passados 15 minutos, depois de dois bloqueios ao empregado no limite do cartão vermelho, eis que chega o couvert. Passados 35 minutos, finalmente, as petingas e o arroz. Mal poisaram na mesa, soltou-se um leve aroma a contentor do lixo da Amareleja no final de um dia de Agosto.

Não é fácil azedar um arroz. Será possível?!, pensei. Arrisquei uma garfada. Podre. Esperei pela opinião da Sílvia. Podre.

Peço desculpa, sr. empregado, temos aqui algo a cheirar a arroz com cura de três meses. “Impossível, foi feito hoje ao meio-dia”, atirou, seguro, o rapaz. Eram 14.30. Tentei explicar-lhe que uma panela de arroz malandrinho a descansar numa cozinha a 40 graus centígrados era um viveiro de estreptococos. Ele sacou da bomba atómica. “Até agora ninguém se queixou.”

Pimba. Tchabum. Vai buscar.

Aquando do episódio do arroz malandro, tinha sido vítima de mais três “até agora ninguém se queixou”, em apenas um mês.  Pelo que não tive dúvidas. Há aqui um novo padrão, uma nova tendência, uma espécie de reciclagem do célebre “não sei porque não provei”.

O que é que se passa? O descalabro generalizado no serviço de mesa deve-se, sobretudo, aos empresários da restauração terem abdicado de mão-de-obra formada e de salários de mão-de-obra formada.

Antigamente, quando os empregados não eram apenas carregadores de pratos, nas escolas de hotelaria aprendia-se a lidar com estas situações recorrendo-se a meia-dúzia de frases de circunstância que nem comprometiam a cozinha nem agrediam o cliente. Hoje, a maltosa que serve às mesas fez-se na rua e usa as armas da rua. Anos de discussões nos furos da Secundaria ensinaram-os a reagir rápido e a serem mortíferos. Atacar para defender.

“Até agora ninguém se queixou” é terrivelmente eficaz e dissuasor. O que nos estão a dizer é, basicamente, “ganda chóninhas que me saíste”. Ficamos a achar que somos queixinhas incorrigíveis, mimados caprichosos com um abcesso na boca. O problema somos nós. Chamem o psiquiatra, tragam o Diazepam.

Mas, será? Recupere-se o arroz de tomate putrefacto. Admitamos que, até às 14.30, saíram vinte doses e que vinte e cinco pessoas o provaram. É possível que só às 14.00 se tenha começado a notar uma alteração no sabor. Perante isto, admitamos que vinte pessoas comeram um arroz satisfatório e que cinco o provaram adulterado.

Porque é que nenhuma destas cinco pessoas se queixou? Vejamos um cenário plausível. Uma estava constipada; outra fora convidada pelos sogros e não ia pagar a conta; outra sofria de introversão patológica; outra estava acompanhada desses filhos cheios de borbulhas e vergonha que proíbem os pais de comunicar.

Todos tinham uma razão válida para não se queixar. Menos eu. Eu era a pessoa, naquele dia, que podia dizer que aquele arroz de tomate estava em vias de se transformar numa monstruosa salmonela azeda.

Dirá o leitor, ò Homem, mas isso passou-se dessa vez.

Não, não. O que se passa, vezes sem conta, é o seguinte. Exigimos muito pouco dos restaurantes. E não devíamos. Vou jantar com os meus filhos a um dia da semana num sítio simples e pago tanto por uma refeição quanto pago por uma varinha mágica de 600 watts. 

A diferença está nisto. Num restaurante, comemos bosta, gato por lebre, pota por choco. Todos os dias somos enganados e todos os dias enfardamos e calamos.

Já se a varinha mágica estiver com falhas eu regresso à Worten para os informar disso e eles ou devolvem o dinheiro ou dão-me uma boa. Na hora. Sem bate-boca. Mesmo que ninguém se tenha queixado.

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